Você está sentado à beira de um lago. O dia é bonito. Você nunca viu um céu de um azul tão claro. Até o ar parece mais limpo, mais fácil de respirar. Você decide entrar no lago; a água fria gera uma sensação agradável em contato com sua pele. Mas ao avançar lago adentro, você tropeça e seu dedão do pé esbarra em alguma coisa que parece uma grande pedra ou tronco. Você descobre uma espécie de galho, de um dos lados, que toma a forma de um arco repleto de pontas.
De repente, o "tronco" se mexe, e se torna dolorosamente claro que aquele objeto em forma de arco é uma enorme garra, que segura sua perna e o puxa para debaixo da água, enquanto uma segunda garra gigantesca segura seu tronco. Você acaba de encontrar um escorpião marinho gigante, e suas chances de sobrevivência não são muito grandes.
Felizmente, esse encontro requereria uma viagem de cerca de 400 milhões de anos no tempo, para o período devoniano da Era Paleozóica. O período foi caracterizado pelo gigantismo das criaturas vivas que percorriam terras e mares. Havia libélulas com asas de 75 cm de envergadura, e centopéias de dois metros caminhando pelo mundo. Mas a espécie que imperava sobre todas as demais era o euriptérido pterigoídeo - o escorpião gigante dos mares.Os euriptéridos são uma família extinta de artrópodes que aparentemente serve como ancestral aos atuais escorpiões e a todos os aracnídeos - a classe que inclui as aranhas e os demais artrópodes de oito patas. Durante os 27 milhões de anos em que os escorpiões gigantes do mar sobreviveram, eles ocupavam o topo da cadeia alimentar, e prosperavam sem ter de combater quaisquer predadores naturais. Os escorpiões gigantes do mar foram um dos animais mais ferozes da Terra, e costumavam devorar peixes de grande porte - bem como uns aos outros. Os euriptéridos eram canibais - lutavam entre si e se devoravam em uma disputa por recursos, presas e parceiros de procriação. A evolução lhes deu um tamanho imenso, mas a concepção quanto a esse tamanho mudou recentemente [fonte:Braddy, et al. (em inglês)].
Alguns anos atrás, o paleontologista Markus Poschmann estava escavando em busca de fósseis em uma pedreira da Alemanha (em inglês). Ele e os colegas estavam removendo camadas de pedras aluviais depositadas como sedimento em um lago ou lagoa há centenas de milhões de anos. O leito desse lago ancestral abrigava o maior artrópode já descoberto [fonte: University of Bristol (em inglês)].
Poschmann percebeu "um trecho escuro de matéria orgânica" em uma das camadas aluviais, e investigações mais detalhadas permitiram constatar que se tratava de parte de uma garra pertencente a um Jaekelopterus rhenaniae, uma espécie de escorpião do mar. O pedaço de garra tinha comprimento superior a 45 cm, e, calculando as dimensões do corpo que sustentaria uma garra como aquela com base em suas proporções, os cientistas determinaram que o escorpião do mar provavelmente tinha comprimento superior a 2,5 metros. Isso representa quase 50 cm a mais do que a maior das estimativas quanto ao tamanho máximo dos escorpiões do mar.
Os paleontologistas variam em suas opiniões sobre os motivos para que os escorpiões gigantes do mar tenham crescido a esse ponto. A atmosfera no período devoniano exibia maior concentração de oxigênio (35%, ante os atuais 21%). Alguns paleontólogos acreditam que isso responda pelo gigantismo característico do período.
Outros acreditam que os escorpiões do mar cresceram a esse ponto por necessidade, a fim de conseguir perfurar a blindagem cada vez mais espessa dos peixes que lhes serviam de presa. Para isso, precisavam de garras (e corpos) de proporções gigantescas. Os autores do estudo que apresentou a descoberta de Poschmann descartam essa explicação, e preferem acreditar que uma combinação de fatores - entre os quais a gravidade mais baixa que existe no fundo do mar - permitiu que os escorpiões marinhos crescessem a esse ponto.
Não importa por que tenham crescido tanto, os cientistas em geral acreditam que os escorpiões do mar foram sobrepujados por grandes peixes com mandíbulas e dentes fortes. Esses peixes forçaram os escorpiões a viver em terra, onde evoluíram em tamanho menor, deixando fósseis que servem como lembrete do período em que dominavam a Terra.


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